20 de nov de 2017

Filme - A Vida Secreta das Abelhas


   Este filme é lindo,  tocante e com uma redenção final magnífica! É um filme independente, premiado no Festival de Sundance.
   Foi indicado para complementar o trabalho do Capítulo 14 do Livro Mulheres que Correm com os Lobos: A Selva Subterrânea, por isso trago novamente esta postagem.
     Ele é especial por abordar de forma profunda e  poética a questão do resgate do feminino através do encontro com o sagrado. 
    Ambientado no sul dos EUA na década de 60,  numa região apegada a tradições rígidas onde as mulheres e os negros sofriam intensa discriminação e violência. 
    Lilly (excelente interpretação de Dakota Fanning) é uma garota  que sofre com os maus tratos do pai. Ela ainda sente a ausência da mãe, morta num trágico acidente, do qual ela carrega muita culpa.
   Até que um dia Lilly foge com sua empregada Rosalyn e vai parar na fazenda de August (Queen Latifah, ótima nesse papel), uma apicultora bem sucedida, que produz o melhor mel de toda a região. Ela é acolhida por August e suas irmãs.
   August ensina  a Lilly tudo sobre a vida secreta das abelhas,  que nesse processo vai resgatando e cuidando das feridas do seu passado, descobrindo uma nova forma de viver, em conexão com a natureza  e o feminino sagrado.
   Além disso, há vários personagens interessantes cujas histórias vão se entrelaçando e enriquecendo ainda mais a trama, que nos faz experimentar muitas emoções.
     O filme toca também na questão da reparação de um mal. O passado não volta, não pode ser mudado. O que podemos fazer é mudar nosso olhar e nossos sentimentos em relação a ele. Nem tudo pode ser reparado, consertado, mas é possível realizar essa reparação internamente, através do perdão e do cuidado amoroso.
    A seqüência final é magnífica, daquelas em que voltamos o DVD várias vezes para rever. 
    O livro que deu origem ao filme é maravilhoso também.
    Permite muitas amplificações simbólicas, ao final temos a sensação de que algo dentro de nós curou-se também. 
    Recomendo a todas!


     

13 de nov de 2017

Correndo Com Lobos - Capítulo 14 - A Donzela Sem Mãos - A Selva Subterrânea

O capítulo 14 é baseado num conto impactante dos irmãos Grimm. Se você não tem o livro, poderá ler o conto aqui.

É longo e complexo, seria impossível abordar todo o conteúdo na forma de post, mas vou destacar alguns pontos.

Um dos pontos principais é o pacto sinistro que às vezes fazemos enganando à nós mesmas, levando à mutilação da alma. A donzela perde as mãos, significando que a partir daí todo o processo estará fora do controle da consciência, perdeu-se a capacidade de moldar a própria vida.

Para podermos sair desta situação é necessário um longo mergulho dentro de si mesma, uma jornada na floresta escura repleta de perigos. Se formos bem sucedidas, poderemos recuperar as mãos como a donzela, ou seja, recuperar a capacidade de cuidar da própria vida, mas agora numa condição diferente, num outro nível de consciência.

Essa volta se dá através do reencontro do Rei com sua esposa e o filho, mostrando que nesse processo houve o resgate de um aspecto íntegro e amoroso (o Rei) e o nascimento de novas possibilidades de existência (o bebê).


Este conto nos alerta que não existem atalhos para o caminho do auto-conhecimento, aquilo que parece um “ótimo negócio” à primeira vista, pode ser uma grande armadilha. 

O que moveu os pais da donzela a fazer o pacto foi a avidez. A avidez nos coloca no estado de velocidade, de desconexão com nossa essência, pois quem está ávido por algo, quer aquilo logo, não é? E acaba não medindo as conseqüências. 

Sem falar que a separação entre o desejo e a obsessão é uma linha muito tênue. É preciso atenção e cuidado para não ultrapassarmos essa linha.

Como podemos evitar esse engano? 

Através do estado de Presença. Sair do piloto automático, permitir-se parar, respirar, refletir, reconectar-se com seu centro. Essa é a saída. 


Como estamos chegando ao final de uma longa jornada, fizemos uma vivência em duplas com massagem de extremidades, bem relaxante. Depois celebramos com as danças circulares que aprendemos durante este curso.

Queridas amigas, é maravilhoso realizar este trabalho com vocês, um grande aprendizado para mim também. Este grupo é muito especial, por sua característica de acolhimento amoroso, respeito e alegria. Vocês poderão ver as fotos do nosso grupo aqui.

No próximo encontro finalizaremos o livro com o Capítulo 15 - Canto Profundo. 



6 de nov de 2017

Grupo Mito e Psique - Suméria -Deusas Inana e Ereshkigal - Final

Ao voltar, a primeira pessoa que ela encontra é Ninshubur, sua fiel sacerdotiza, que lutou para salvá-la. Os soldados querem levá-la, mas Inana os impede. Não pode enviá-la ao submundo, tem um débito de gratidão com ela.

Seguem para seu castelo e ao chegar, ao invés de encontrar luto por sua morte,  há uma festa. Dumuzi sentado em seu trono cercado de belas dançarinas. Que traição! Ela manda que os soldados o levem para o submundo.

A irmã de Dumuzi, Geshtinana (a Deusa do Vinho) fica transtornada com o destino do irmão e pede à Deusa que possa revezar com ele no submundo. Ela concorda. Cada um deles passa metade do ano na superfície e outra metade no mundo dos mortos.

Quando corre a notícia do retorno de Inana, acontecem celebrações em todos os templos para Aquela que por amor aos seres humanos, escolheu viver na terra e quis conhecer o destino dos homens, desceu à Mansão dos Mortos e ressuscitou no terceiro dia (essa frase do poema original foi depois copiada pelo cristianismo como parte da oração do Credo).

Ela recebeu o título de Redentora da Humanidade. Pois trouxe um sentido para a morte no ciclo da vida e mostrou que o amor nos conecta com a eternidade e de forma simbólica nos possibilita transcender a finitude.

Ficou durante quarenta dias na terra orientando seus devotos e depois ascendeu aos Céus, mas estava sempre atenta aos seres humanos e suas súplicas.

Ereshkigal estava presa no Submundo, mas encontrou uma redenção através de sua filha Lilith, que era livre para transitar entre os mundos e visitar o Reino dos Deuses. Como Lilith era belíssima e amorosa, era cortejada por todos. Acabou casando-se com Enki, o Deus das águas doces, e teve duas filhas. Duas Deusas muito belas, corajosas e fortes, cada uma delas casou-se com um filho de Eva* e deram origem aos Sumérios e à linhagem dos Reis da Suméria.

*A lenda de Adão e Eva teve origem com os Sumérios. Para eles, Eva foi feita de barro pelo Deus dos Céus e colocada no ventre da Deusa da Terra para que ganhasse vida. Eles quiseram dar-lhe um companheiro, então depois Adão foi criado da mesma forma. Eles eram humanos, feitos do barro, mas filhos dos Deuses. Na história original, Eva foi criada primeiro! Só depois de muitos séculos outros povos inventaram a história da tal costela de Adão...

Dessa forma, os Sumérios acreditavam ter origem divina através do casamento das netas de Ereshkigal (filhas de Lilith)  com os filhos de Eva, consideradas suas ancestrais. Em seus templos, eles cultuavam Lilith, como Deusa da Beleza e do Amor e também Inana por seu Cuidado, Proteção e Fertilidade.

Depois de milênios, surgiram as religiões monoteístas que combatiam o culto à essas Deusas e criaram outras histórias sobre elas para denegrir sua imagem. 

Lindo esse mito, não é? 
Tem muitos significados simbólicos e psicológicos importantes para nosso desenvolvimento.
Você consegue decifrar algum? 

Se perdeu a primeira parte, clique aqui. A segunda parte (aqui).



30 de out de 2017

Grupo Mito e Psique - Suméria - Deusas Inana e Ereshkigal - Parte 2

Inana passando pelo portal para o Submundo


Inana inicia a descida para o Reino dos Mortos, mas Ereshkigal, tendo ouvido que sua irmã estava a caminho do submundo, fica furiosa: "Quando gritei e implorei por ajuda, ninguém me ouviu! Agora ela vem me fazer uma visita? Como assim?" 

"Este é o Reino dos Mortos! Ninguém vem aqui a passeio."

Inana chega no primeiro portal e encontra um juiz, um guardião, que a impede de passar a menos que deixe sua coroa de Deusa. Ela aceita, entrega a Coroa e continua seu caminho.

No segundo portal, outro guardião pede que deixe seus brincos e seu colar. Caso contrário não poderá prosseguir. Ela os entrega e continua.

No terceiro portal, deixa seu colar de contas de orações.

No quarto portal ela entrega seu escudo peitoral de ouro.

No quinto, seus braceletes.

No sexto, seu cetro de lápiz lázuli, sua barra de medição.

No sétimo, todas as suas roupas. Ela chega diante de Ereshkigal nua e curvada.

Deusa Inana, também chamada de Ishtar, seu símbolo é a serpente e a estrela de oito pontas.

Inana encontra Ereshkigal furiosa e prestes a dar à luz. Ela diz à irmã: "Sacrifiquei tudo para chegar até aqui." Mas Ereshkigal responde: "Não entendeu que você é o sacrifício?" E lança sobre a irmã o olhar da morte. Inana morre, e Ereshkigal manda que pendurem-na pelos pés em uma árvore, para que apodreça.

Três dias se passam e como a Deusa não retornou, Ninshubur vai aos Deuses dos Céus pedir ajuda. Eles a ignoram. Ela fica desesperada e vai até Enki, o Deus das águas doces e suplica por ajuda. Ele se compadece, e com o barro que estava debaixo de suas unhas cria duas criaturinhas minúsculas, sopra-lhes a vida e lhes entrega o pão e a água da vida.

Deusa Ereshkigal

Essas criaturas são tão pequeninas que passam despercebidas pelos guardiões dos portais e chegam rapidamente ao submundo, encontrando Ereshkigal em dores de parto, gritando e lamentando. Eles ficam ao seu lado pacientemente, apenas ecoando seus lamentos.

Ela grita: "Ai minha dor!"....e eles ecoam: "Ai, sua dor!"...

"Ai, meu destino...." e eles: "Ai, seu destino"....

E assim ela pode lamentar-se, sofrer e gritar diante desses seres que a acolhem sem qualquer julgamento, sem necessidade de dar uma resposta. Ao final do trabalho de parto, ela dá à luz uma linda menina, uma Deusa chamada Lilith (depois o monoteísmo deturpou totalmente a história de Lilith).

Deusa Lilith

Ela fica tão agradecida a esses seres, que oferece a eles o que quiserem. Eles dizem que querem apenas o corpo de Inana e ela concorda.

Eles retiram o corpo de Inana da árvore e colocam o pão e a água da vida em sua boca. Ela volta a viver! 

Eles iniciarão a jornada de volta à superfície, mas antes Ereshkigal os avisa de que alguém deve tomar o lugar de Inana, pois a quantidade de almas no reino dos mortos não pode mudar. Ela envia um grupo de soldados com Inana para garantir que trarão um substituto.

E agora? 

Na terceira e última parte...Já, já...Aguarde.


Se perdeu a primeira parte (aqui).

23 de out de 2017

Grupo Mito e Psique - Suméria - Deusas Inana e Ereshkigal - Primeira Parte


No Grupo Mito e Psique estamos dando a volta ao mundo através dos mitos de várias civilizações, fazendo uma relação com a psicologia, filosofia, história, artes...Neste ano estamos nos dedicando às Primeiras Civilizações que surgiram no Ocidente: Suméria, Egito e Ilha de Creta.

Dedicamos 4 meses ao estudo da Mitologia da Suméria e seria impossível trazer todo este conteúdo aqui. Então contarei apenas o Mito das Deusas Inana e Ereshkigal, que é o mais famoso e representativo desta civilização. Permite muitas amplificações simbólicas.

Está registrado em placas de argila de mais de 5000 anos, conservadas no museu do Louvre (conforme você pode ver na foto acima).

A Suméria existiu onde hoje é o Iraque. Foi uma civilização fascinante; deles recebemos a escrita, a agricultura, técnicas de irrigação, navegação à vela, organização em forma de cidades, um código de leis que é referência até os dias de hoje, astronomia e astrologia...e uma riquíssima mitologia.

Representação gráfica à partir dos achados arqueológicos de como era uma cidade da Suméria há mais de 4000 anos. Vejam como era uma civilização avançada.

O mito é muito, muito longo, tentarei contar resumidamente. Existem outras versões, a que utilizo é a que está nas placas de argila e foi traduzida diretamente para o inglês.

No princípio era o caos do mar primordial. A grande Deusa Namu começou a separar as águas em águas doces e águas salgadas. E entre elas surgiu a terra. Céu e terra se formaram e então surgiu o Sol, trazendo o fogo vital.

A grande Deusa começou a dar origem a outros Deuses, que regeriam cada elemento da natureza. Os Deuses do Ar, das Águas, a Deusa da Terra e o Deus do Submundo.

O Deus do Ar e a Deusa da Terra se casaram e tiveram três filhos: O Deus do Sol e duas gêmeas: As Deusas Inana e Ereshkigal. Elas eram incrivelmente belas.

Um dia, o Deus do Submundo (ou Mundo dos Mortos) chamado Nergal viu a bela Deusa Ereshkigal brincando com outras donzelas e se apaixonou imediatamente.  Ao invés de cortejá-la e pedi-la em casamento aos seus pais, ele a raptou e a levou para seu reino, obrigando-a a tornar-se sua esposa.

Ela gritou desesperadamente pedindo socorro, mas ninguém a socorreu. O Deus Nergal era muito poderoso, representava a morte, e com ele não se brinca...diziam os demais Deuses. Então ela ficou presa no submundo tornando-se a Rainha do Mundo dos Mortos e tempos depois descobriu que estava grávida, lamentando por seu destino.

Enquanto isso, sua irmã Inana, recebeu dos Deuses a semente da árvore da vida, que plantou na terra e dela surgiram todas as plantas vitais para o sustento da humanidade. Um homem chamado Dumuzi passou a cuidar com carinho de cada planta, aprendendo a cultivá-las com a Deusa, dando origem à agricultura. 


Os Deuses ao redor da árvore da vida. A Deusa Inana é representada pela estrela de oito pontas (o planeta Vênus).

Inana apaixonou-se por Dumuzi e eles se casaram. Ele se tornou rei, indo morar no castelo da Deusa. Eles viviam felizes e tiveram dois filhos. 

Ao viver entre os seres humanos, Inana descobriu as paixões: o amor, o desejo, o ciúme e o medo. E o maior medo que os seres humanos tinham: o medo da Morte. Ela passou a amar profundamente a humanidade.

Até que um dia chegou a notícia de que Nergal, o Deus do Submundo, havia morrido. Inana lembrou-se de sua irmã raptada e queria ir visitá-la. 

Mas todos os Deuses a alertam para que não fosse: "Não faça essa loucura, do reino dos mortos ninguém volta." 

"Você é adorada pelos seres humanos, Rainha do Céu e da Terra, por que abrir mão da sua imortalidade?"

Mas ela respondeu: "Exatamente porque sou adorada pelos seres humanos e porque os amo, quero conhecer o destino dos homens. Além disso, minha irmã está lá, quero visitá-la."

Os Deuses então disseram que se essa era sua decisão, que não contasse com eles, daqui para frente estaria por sua conta.


Ninshubur com o Tambor

Inana então foi a um dos seus templos e chamou por sua Sacerdotisa mais devota: Ninshubur. Pediu que Ninshubur fosse com ela até o portal para o Reino Inferior e que lá ficasse tocando seu tambor e cantando os hinos com os nomes da Deusa, para que Inana não se esquecesse de quem era e encontrasse o caminho de volta.

Pediu ainda que se ela não voltasse em três dias, Ninshubur deveria ir até os Deuses do Céu pedir ajuda.

Assim então inicia-se a descida de Inana para o Reino dos Mortos,  a parte crucial do mito.

O que acontecerá...? Você saberá no próximo post.



Para ler a segunda parte, clique  aqui.